No segundo dia de congresso, ficámos a conhecer melhor dois outros países e uma área da Medicina pouco conhecida.
(Notas: Texto escrito por Catarina Castro e Pedro Picoito. A Mesa Redonda será objeto de um artigo em separado.)
Durante o curso, o corpo humano é bastante abordado dentro das quatro paredes de um hospital e num paradigma de prevenção e cura. Pouco se fala da Medicina em condições extremas como a exploração do Ártico, pistas F1, o espaço, atletas de competição e forças especiais. A programação do Future MD aproximou-nos da temática, através do Dr. Emiliano Ventura.
Uma principal diferença desta área de atuação é que, ao contrário do que estamos habituados, aqui o objetivo não é a cura, a longevidade e a prevenção. Aqui a Medicina serve para desafiar novos limites e explorar outros mundos. Nestes contextos, o risco tem de ser zero – falhar não é uma opção.
Foi uma palestra interessante, no entanto um tanto genérica. Ficámos a conhecer melhor a “fisiologia de elite”, embora de uma forma algo superficial. O Dr. Emiliano mostrou de forma elucidativa como esta área se distingue da Medicina clínica tradicional. Não obstante, teria sido apelativo perceber mais concretamente que trabalho é desenvolvido neste ramo.

Depois de explorarmos ambientes mais extremos, aterrámos no Reino Unido. Esta FME foi lecionada pela Drª Maria Piccochini. A Dra. Maria começa por expor a estrutura do curso de medicina e internato no Reino Unido: depois de 2 anos de “Foundation” (equiparável ao ano comum), há 2 pontos de entrada Core training e Higher special training, sendo que cada um pode decidir se entra logo no Higher special training ou se pretende esperar. Realça também a alta competição para esta entrada à especialidade, começando já por baixar as expectativas gerais sobre esta opção. Refere, também, um rácio<1 para estrangeiros.
No tema de estrangeiros, dar nos a conhecer a mais recente atualização, que dita que passará a haver prioridade a cidadãos britânicos e a estudantes do Reino Unido, Irlanda, Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suiça no concurso de entrada a especialidade. De seguida, explica o processo de candidatura com destaque na importância do CAMP (Clinical, Academic, Management e Personal)- dotes pessoais não só nas áreas académicas como sociais e motivacionais. Termina a sua apresentação com uma partilha de experiência pessoal, na qual destaca ter realizado o ano comum em Portugal e começado o internato em Cirurgia Geral antes de submeter a candidatura para o Reino Unido.

A segunda palestra do dia sobre a formação médica no estrangeiro, já da parte da tarde, levou-nos até aos Estados Unidos, com o Prof. Dr. Filipe de Carvalho, médico urologista. O processo de acesso à especialidade nos EUA é complexo, ainda mais para estrangeiros, por isso esta palestra foi extremamente útil para os interessados neste destino.
O primeiro passo para realizar a especialidade nos EUA é ter a certeza de que a escola médica em que o médico se formou é creditada pela ECFMG (Educational Comission for Foreign Medical Graduates). Já a parte mais vital do processo prende-se com a aprovação nos exames USMLE 1 e USMLE 2. O primeiro incide sobre as ciências básicas como Anatomia e Fisiologia. Já o segundo foca-se em diferentes especialidades como Cardiologia, Medicina Interna e Cirurgia Geral. Ao contrário da maioria dos outros sítios, é bastante importante ter experiência médica nos EUA previamente ao ingresso na especialidade, que pode passar por Observerships, Externships, Research Fellowships e Sub-internships. Através destes, é essencial também obter cartas de recomendação.
Apesar do ingresso para quem vem de fora ser, em geral, complicado, há especialidades de acesso mais fácil para estrangeiros, como Medicina Interna, MGF, Pediatria e Anatomia Patológica. Já as mais competitivas são Dermatologia, Cirurgia plástica, Neurocirurgia e Urologia. Em relação à duração da especialidade, esta varia bastante. Na maior parte delas, fazem-se 3 anos da especialidade base (ex.: Cirurgia Geral) e depois desta, a especialidade específica. Talvez por o processo em si ser bastante complexo, a explicação desta parte do caminho foi algo confusa.

Para o Prof. Dr. Filipe de Carvalho, há várias razões para fazer a formação especializada nos EUA. Apontou como vantagens a variedade de patologias a que se está exposto, bem como a investigação ser bastante valorizada. Apesar da remuneração durante o internato não ser a melhor, esta melhora consideravelmente como especialista, que é outra mais-valia. Ter formação médica nos EUA é também um grande carimbo de confiança para mobilidade para outros sítios e cargos. Outro ponto forte é o facto de o sistema ser padronizado, estruturado e transparente. O trunfo principal que muitas vezes associam aos Estados Unidos é a questão da progressão ser baseada por completo no mérito, algo que foi referido pelo Prof. Dr. Filipe de Carvalho.
Já os desafios da prática e formação médica prendem-se com a exigência. As horas de trabalho requeridas são numerosas e a expectativa de performance é alta. Um obstáculo importante é a complexidade do processo para a obtenção do visto e para a admissão no internato. Por fim, o ambiente de litigação que se vive na prática médica não deve ser desvalorizado.
O segundo dia de congresso não se ficou por aqui. Na segunda parte deste artigo, visitamos a Alemanha, a consultoria e a Saúde Pública.


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