FutureMD 8.0 – Sábado Pt. 2

Depois de uma manhã preenchida e um bom almoço, a tarde do segundo dia de congresso trouxe o final das sessões plenárias desta edição.

(Nota: Texto escrito por Catarina Castro e Pedro Picoito)

A sessão “Da pipeta à prescrição”, abordada pela Drª Alexandra Nobre, fundadora da Nowace, Júnior empresa da Nova Medical School, visou abordar alternativas menos convencionais com o Mestrado Integrado em Medicina. A doutora esclarece como chegou à consultoria, uma saída menos habitual: ter organizado o projeto de Nowace puxou-a sempre mais para esse lado.

Após os 6 anos de curso, começou a estagiar numa empresa relacionada com a indústria farmacêutica. Isso trouxe-lhe vantagens como a ausência de necessidade de realizar a Prova Nacional de Acesso mas também desvantagens, como a dificuldade no recrutamento, uma vez que está a a concorrer com licenciados em gestão, economia ou finanças- ter tirado medicina não lhe traz nenhuma vantagem neste nivel. Explicou o seu dia-a-dia como “muito excel, slides e reuniões”. Para além da consultoria também mostrou outras oportunidades, especialmente focadas na área farmacêutica.

Para nos falar de Medicina de Catástrofe e Ação Humanitária, o FutureMD convidou a Dra. Ana Pinto de Oliveira, especialista em Saúde Pública. Logo no início da palestra, a Dra. Ana afirmou que “o mundo precisa de médicos onde não há hospital”, seja campos de refugiados, regiões afetadas por terramotos, em zonas de conflitos armados, entre outros.

Dra. Ana Pinto de Oliveira, por Manuel Vizoso

Uma noção importante transmitida é que Medicina Humanitária não é White saviourism e também não é turismo. Isto combate-se aprendendo muito antes de ir para o terreno, nomeadamente sobre Direito, Ética e também Medicina. Defendeu ainda que a carreira humanitária não começa depois da especialidade, mas sim na mentalidade.

A Dra. Ana demonstrou-se muito acessível, disponibilizando-se para a contactarmos depois da palestra e mostrou uma mentalidade ética e decidida, num tema que facilmente se torna polémico e que muitas vezes é abordado com pouca sensibilidade.

A última palestra das sessões plenárias incidiu sobre o Internato Médico na Alemanha, pela mão da Dra. Carolina Gatinho, interna de Anestesiologia no país. Apesar da dificuldade da língua, a Alemanha continua a ser um destino desejado por muitos médicos e estudantes de Medicina.

A Dra. Carolina começou por caracterizar o país, esclarecendo que é um país extremamente diverso em termos de paisagem, com clima variável e estações do ano bem marcadas, mas pouca exposição solar. Testemunhou também que o estereótipo se confirma: valorizam a pontualidade, a organização e o respeito por regras. A alimentação, além de pouco saudável, não é muito interessante.

Dra. Carolina Gatinho, por Manuel Vizoso

Num contexto mais específico, retratou ainda a Alemanha do ponto de vista da Medicina. Há uma grande falta de médicos na Alemanha, sendo que 15% dos médicos na Alemanha não tem cidadania alemã. Ao contrário de Portugal, é um sistema muito descentralizado, no qual há vários centros importantes fora das grandes cidades e espalhados pelo país. Para além disso, as condições dos hospitais são de grande qualidade.

No que diz respeito ao Internato Médico, este permite ao médico ditar o seu próprio ritmo, havendo uma grande flexibilidade. Permite-se fazer várias pausas na formação sem ter de recomeçar o processo desde o início quando se regressa. É também fácil e comum mudar o hospital em que se faz o internato durante o mesmo. Sobre o papel do interno, a mentalidade é diferente de Portugal. O hospital não é tanto local de formação, mas mais de trabalho. Para além disso, a formação e estudo é responsabilidade do médico interno, não havendo um orientador formal. Para além disto, não existe um exame de acesso à especialidade, como a PNA, sendo a candidaturas diretamente ao hospital, e não há Internato de Formação Geral.

Há quem escolha a Alemanha como destino para começar mais celeremente a especialidade, mas talvez o atrativo mais universal seja a remuneração. O salário base varia entre 3200€ e 4300€ por mês líquidos. A este valor acresce a remuneração de turnos noturnos, fins de semana e horas extra. A variação do valor base prende-se com vários fatores. O salário depende do hospital e do estado da Alemanha em que este se localiza, sendo que os hospitais universitários e aqueles no estado da Baviera pagam mais. Existe ainda uma progressão anual de vencimento, que é automática e na qual são valorizados os anos a exercer, sendo que o Ano Comum realizado em Portugal é tido em consideração nestes cálculos.

Coffee Break, por Manuel Vizoso

Apesar de um salário mais alto, o custo de vida é também elevado, embora se possa considerar que compensa. Nas cidades mais caras, como Berlim, Munique e Hamburgo, este varia entre 900€ e 1400€ por mês. Já fora das cidades, em zonas menos industrializadas e no leste do país, as despesas mensais rondam os 400€ a 700€. Pelas contas da Dra. Carolina, é possível conseguir uma poupança média de 1000€ por mês, mesmo em cidades mais caras e com um estilo de vida não restritivo.

No entanto, para lograr de tais condições, há um caminho a percorrer. É necessário aprender alemão pelo menos até ao nível B2, bem como preparar os vários documentos necessários. Depois disso, devemos escolher o estado (Bundesland) no qual se pretende trabalhar e entregar os referidos documentos. É essencial ainda fazer o exame de alemão médico (Fachsprachenprüfung), obter a licença médica alemã (Approbation) e, por fim, candidatar-se aos hospitais.

A candidatura é feita diretamente ao hospital. Durante o processo há uma entrevista de emprego, na qual o hospital avalia se nos quer empregar ou não. No entanto, a Dra. Carolina defende que esta ocasião serve também para o futuro médico interno perceber se aquele hospital se enquadra com o seu perfil e objetivos. Sugere que se fale com os outros internos do serviço, de forma a perceber como é o ambiente de trabalho.

Embora o nível de exigência geral seja elevado no processo de mudar-se para a Alemanha, o país continua a ser escolhido por vários recém-médicos portugueses. Com a apresentação da Dra. Carolina Gatinho, confirmámos que o processo é, sem dúvida, desafiador. No entanto, há vários pontos fortes, como o salário e as boas condições, que podem justificar a jornada.

Depois desta última palestra, a Comissão Organizadora do FutureMD tomou o palco, com discursos de agradecimento e dedicatórias ao resto da equipa. Foi o encerramento das sessões plenárias da oitava edição. No dia seguinte, já seguiríamos para o edifício sede da Nova Medical School para as sessões paralelas.


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