A FRONTAL esteve presente na oitava edição do congresso FutureMD, parte da AENMS. Trazemos-te a cobertura do primeiro dia.
(Nota: Texto escrito por Catarina Castro e Pedro Picoito)
Destinado a estudantes de Medicina e Internos do Ano Comum, o FutureMD é um congresso organizado por alunos da Nova Medical School centrado na empregabilidade médica e na diversidade de oportunidades disponíveis para os jovens médicos portugueses. Para além de se nos mostrar alguns caminhos mais convencionais, apresenta-nos algumas vias alternativas que um médico pode tomar, bem como nos põe em contacto com a realidade do Internato Médico no estrangeiro.
Em abril deste ano, a FRONTAL participou mais uma vez no FutureMD, com o objetivo de cobri-lo. O congresso iniciou-se com um discurso feito pela coordenadora do próprio, Marta Fernandes, e, de seguida, com as palavras da presidente da AENMS, Diana Ribeiro. Apresentaram um QR code que iria ser utilizado ao longo das sessões, como maneira de colocar dúvidas para serem respondidas no final de cada uma destas. Incentivaram ainda à participação no giveaway de um curso de ecografia de emergência.
Para a primeira palestra do congresso, recebemos o Dr. Ricardo Guilherme, especialista em MGF e que atualmente divide o tempo entre o centro de saúde e a Medicina Estética. Foi esta a área sobre a qual nos falou, quebrando algumas ideias erradas que tínhamos. Uma noção pouco comum sobre a Medicina Estética é que vai muito além do Botox. Passa também pela recuperação de cicatrizes, necroses, por exemplo no caso do pé diabético, e outras formas de reconstrução. Ainda assim, a maioria dos doentes vêm à consulta para combater sinais de envelhecimento, como rugas e manchas.

Não obstante, verifica-se atualmente uma diminuição da idade média dos doentes, que o Dr. Ricardo atribuiu ao impacto das redes sociais como plataforma difusão deste mercado. No entanto, cerca de metade dos seus doentes encontram-se na faixa etária entre os 35 e 50 anos. Atualmente, o Dr. Ricardo nota na sua prática que há um aumento da procura de tratamento minimamente invasivo ou preventivo e os doentes têm também uma expectativa muito clara dos resultados que pretendem obter. A Medicina Estética é uma área que exige tanta responsabilidade quanto as outras áreas da Medicina, especialmente quando se trabalha na cara, que é uma zona exposta a toda a gente e com a qual o doente se depara sempre que se olha ao espelho. O Dr. Ricardo defendeu ainda uma abordagem natural e simples, reforçando que “os injetáveis não devem ser detetáveis”.
Depois da Medicina Estética, viajámos até à Bélgica com o Dr. Gonçalo Froes, que nos esclareceu o funcionamento do Internato Médico no país. Fez o curso de Medicina na Université Catholique de Louvain e é especialista em Urologia desde 2024. Atualmente trabalha na Fundação Champalimaud, em Portugal. Começando pela duração dos internatos, a maioria deles é de 5 anos. Varia entre 3 anos (MGF) e 7 anos (Neurocirurgia e Cirurgia Maxilo-Facial). Medicina Interna, Geriatria e Radiologia são 5 anos e as médico-cirúrgicas são 5 anos, exceto Urologia e Ortopedia, que duram 6 anos. Cirurgia Geral são também 6 anos e Anestesiologia 5.

O internato na Bélgica tem algumas especificidades que o distinguem de Portugal. O Dr. Gonçalo refere que desde o primeiro dia há muita responsabilidade e, embora isso possa ser assustador, aprende-se bastante com isso. Os primeiros anos da maioria das especialidades médicas faz-se em Medicina Interna e o mesmo acontece nas cirúrgicas com Cirurgia Geral. Ao contrário de Portugal, a candidatura deve ser feita diretamente à especialidade e hospital de preferência. O número de vagas pode ser consultado aqui. A língua é um critério para a admissão, sendo exigido C1 de flamengo ou de francês, dependendo da zona da Bélgica em que se pretende realizar o internato.
Embora o nível exigido seja alto, os salários oferecidos talvez sirvam de motivação de motivação a alguns. A remuneração varia entre 3.111,92€, no primeiro ano, e 3.761,92€ no sexto ano. Com a especialidade concluída, os valores são naturalmente mais elevados. Fazendo um balanço entre vantagens e desvantagens, o Dr. Gonçalo aponta como vantagens a remuneração, 40 dias de férias pagas, estar no Centro da Europa (o que permite viajar facilmente) e a autonomia. Esta última é também apontada como uma desvantagem, juntamente com o horário, que pode legalmente ir até 60 horas semanais, e o clima chuvoso com pouco sol.
Viajando para um país vizinho, fomos conhecer o internato médico em França. O Dr António Lopes, interno da especialidade de Psiquiatria em Amiens, apresentou o seu percurso e partilhou a sua experiência na formação médica em França. Iniciou a sessão descrevendo o seu trajeto académico, salientando o Internato de Formação Geral em Portugal e em 2023 o internato de Psiquiatria no CHU- Centro Hospitalar Universitário- Amiens Picardie.

Ao longo da apresentação, o doutor explicou a estrutura e duração das diversas especialidades médicas em França, sublinhando que, de forma geral, são equiparáveis às portuguesas. Contudo, alertou para a existência de especialidades que não têm correspondência direta em Portugal, um aspeto relevante para quem pondera, tal como ele, regressar. Um dos pontos que destacou no seu percurso em França foi, tal como em Portugal, a possibilidade da realização de competências, formações adicionais gratuitas com a duração de 12 meses, destinadas a aprofundar áreas específicas. Com notório entusiasmo, referiu que irá frequentar, em Paris, uma Competência em Medicina do Sono.
Para além destas formações, mencionou ainda os DUs (Diplômes Universitaires) e os Inter‑CHU, programas que funcionam como intercâmbios de 6 a 12 meses dentro do país, permitindo diversificar a experiência clínica. Entre os aspetos negativos, o Dr. António apontou a reduzida autonomia inicial dos internos, a língua como grande desafio e a faceta burocrática do processo. Concluiu com uma lista de vantagens e desvantagens da formação em França, sendo notório que o conjunto de aspetos positivos foi mais extenso. Relativamente ao processo de candidatura, recomendou a realização das provas durante o 6.º ano do curso e aconselhou, embora não seja obrigatório, a obtenção do nível B2 na lingua francesa.

A palestra seguinte, intitulada “Cuidado à Medida”, foi dada pela Investigadora Rita Fior e teve como objetivo apresentar uma alternativa inovadora à quimioterapia: o modelo Zebrafish. Esta abordagem consiste na injeção de células tumorais em peixes‑zebra para testar terapêuticas e observar, in vivo, a resposta a tratamentos como anticorpos ou radioterapia. Além disso, permite acompanhar a evolução do tumor e as suas interações com os componentes do organismo.
A principal diferença em relação ao modelo murino, considerado o gold standard, assenta no tempo necessário para obter resultados. Enquanto nos ratinhos a análise pode demorar vários meses, o modelo Zebrafish destaca-se por dar os resultados das análises em poucos dias, sendo assim uma ferramenta mais eficiente.
A Investigadora Rita Fior prosseguiu com uma explicação detalhada desta metodologia do ponto de vista celular, recorrendo a imagens, gráficos e representações. Esta componente, embora cientificamente enriquecedora, tornou a compreensão exigente e extensa para o público e, em comparação com palestras anteriores, revelou‑se algo desalinhada com o tema e o formato do evento. A sessão terminou com a apresentação de um vídeo que sintetizou os principais pontos abordados, oferecendo uma visão global e estruturada da metodologia e do seu potencial clínico.

Depois da Biologia, passámos para um tema mais clínico. A saúde sexual é um tema cada vez mais falado e o Future MD não ficou atrás. A Dra. Mafalda Cruz é sexóloga de profissão e cria conteúdo para as redes sociais. Formou-se em medicina pelo ICBAS em 2013 e especializou-se em Radioncologia no IPO de Coimbra.
Uma das principais motivações da Dra. Mafalda para aceitar o convite do FutureMD foi mostrar que caminho podem tomar as pessoas até se tornarem sexólogas, uma vez que ela não teve ninguém que a guiasse e sentiu falta de tal. O interesse pela Sexologia nasceu da identificação de um problema. Trabalhando em Radioncologia, era óbvio que a terapia causava sérias disfunções sexuais nos doentes mas ninguém falava disso. A procura de uma solução impeliu-a a fazer uma pós-graduação em Sexologia Clínica.
Insatisfeita com a vida profissional, criou em setembro de 2022 o MedSex, uma página do Instagram que promove literacia sexual. Com o desenvolver da página, percebeu que precisava de mais formação e fez o Curso Avançado de Medicina Sexual (ESSM) em Budapeste, que indica como o melhor curso disponível atualmente nesta área.

Em julho de 2024, decidiu rescindir contrato com o SNS. Atualmente, exerce Medicina Sexual na ULS de Gaia e Espinho e é coordenadora da Clínica de Oncossexologia e Radioncologista na ULS de Faro. Faz ainda consultas particulares de Medicina Sexual, ao que se soma o MedSex. Dá formação a outros profissionais, nomeadamente à Indústria Farmacêutica e na Academia. Para além disto tudo, faz publicidade com marcas e escreve uma crónica na Revista Notícias Magazine. Recentemente, estreou o podcast “O prazer é todo meu”, com o Jornal Expresso.
Sobre a prática clínica, a Dra. Mafalda destaca como principais motivos de consulta a dor sexual, a diminuição do desejo, disfunção erétil e ejaculação precoce. Refere ainda a importância do apoio e colaboração multidisciplinar com áreas como MFR, Ginecologia, Psicologia, Fisioterapia Pélvica e Serviço Social. A Dra. Mafalda Cruz destacou-se como uma das melhores oradoras desta edição do Future MD. Bastante engraçada, manteve um tom deveras pessoal e próximo ao longo da palestra e contou-nos sobre o seu percurso de forma fluída e cativante.
Mais tarde, fomos guiados pela Dr.ª Ana Isabel Pedroso, médica internista e intensivista. Ela é reconhecida nas plataformas digitais, nomeadamente no Instagram — @dokinni, onde conta com mais de 80 mil seguidores —, e também na televisão, onde iniciou a sua presença nos media. Após apresentar o seu percurso profissional, a doutora focou-se em transmitir uma série de ideias essenciais sobre comunicação na área da saúde.

Sublinhou que o principal desafio atual não é a falta de informação, mas sim o excesso, frequentemente acompanhado de desinformação. Destacou que esta desinformação cria mitos e que cabe aos profissionais de saúde desmontá‑los, lembrando que “se não explicarmos bem, alguém explicará mal”.
Ao longo da sessão, falou com entusiasmo, referindo sentir‑se útil ao esclarecer dúvidas e que “já se sente satisfeita se poder ter evitado uma ida ás urgências desnecessária”. Contudo, abordou os desafios associados à exposição, nomeadamente a necessidade de proteger a privacidade do doente. Para concluir, deixou um conjunto de recomendações sobre aquilo que os profissionais de saúde não devem partilhar nas redes sociais, como críticas públicas a outros colegas ou de promover consultas por chat.
Terminou assim o primeiro dia de palestras da oitava edição do FutureMD. Falou-se de temas atuais, como a Medicina Estética e a Sexologia. Houve também espaço para temas tão diferentes como biologia celular e redes sociais, num programa sempre tão completo como é o do FutureMD.


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