Encontrei-me com a Dra. Sonia Adesara depois da sua palestra humanitária que encerrou a primeira sessão de palestras do iMed Conference 17.0. Sonia Adesara é médica e ativista britânica, especializada em saúde reprodutiva e formada na Universidade de Nottingham. Vem de uma família de refugiados, nomeadamente a sua mãe, que veio de Uganda. Foi no início da sua carreira que começou a reparar nas más condições em que os pacientes refugiados viviam, devido a políticas hostis e ambientes que impossibilitam o tratamento dos mesmos, entre outras questões sociais. Desde então, tem tido um papel ativo em campanhas sociais que defendem os direitos das mulheres e a igualdade de género, lutando, também, contra o racismo e ainda apelando à importância da saúde mental. Se quiseres saber mais sobre o seu trabalho, podes ler os artigos no seu site: https://www.soniaadesara.com/
Neste momento, tem uma carreira que se foca principalmente na política e no ativismo. Como é que decidiu ser médica?
Dra. Sonia Adesara (SA):Não me recordo muito bem quando é que tomei essa decisão porque sempre gostei de fazer muitas coisas diferentes. Foi uma decisão bastante tardia, mesmo antes de termos de preencher as candidaturas para a faculdade. Acho que queria fazer algo onde pudesse ajudar as pessoas, e, por isso, acabei por escolher Medicina. Na altura, como adolescente que era, havia muitas coisas que eu gostava de fazer e, provavelmente, entrei em Medicina sem perceber realmente o que ser médico implicava. Somos bastante novos quando tomamos este tipo de decisões, e eu tinha apenas 17 anos!
Nunca achei a ciência muito interessante, e estudar Medicina foi muito difícil para mim, no entanto, adoro ser médica! Costumo dizer aos estudantes de Medicina o seguinte: “Se ainda não estás a gostar, ser médico é muito diferente de aprender Medicina!”. Aprender Medicina e toda a parte científica que isso implicava era mesmo muito aborrecido, porque implica a memorização de uma quantidade enorme de informação, grande parte da qual nem sequer é precisa na tua carreira.
Por isso, não gostei dessa fase. Assim que acabei o curso e me formei é que realmente aprendi a ser médica e a ser uma boa médica. E agora estou também a aprender a ser o tipo de médica que quero ser, o que é diferente de ser simplesmente uma médica.
A Medicina é uma arte, não apenas uma ciência, e acho que a Faculdade de Medicina foca-se sobretudo na ciência, e só aprendemos a arte da Medicina depois de nos formarmos. Nos últimos anos em que tenho sido médica, tenho gostado muito mais, sobretudo na especialidade em que estou (MGF- na Inglaterra G.P.), porque tenho autonomia no meu trabalho.
Quando é que começou a trabalhar na área humanitária?
Sempre fui uma pessoa política. Nunca fiz campanhas, nem estive ligada à política durante a Faculdade de Medicina. Tudo o que fiz foi passar nos exames. Só comecei a trabalhar nessa área depois de me tornar médica, e ainda mais quando me mudei para Londres.
Fiz a minha formação inicial (dois anos de formação antes de começar a trabalhar) e só depois é que me mudei para Londres. Em Londres, conheci muitas pessoas como eu, médicos que eram politicamente ativos, e foi aí que comecei a envolver-me mais. Não foi algo planeado, simplesmente aconteceu. Depende de quem se conhece, do que se vê, com quem se trabalha.
Também fiz muitas coisas diferentes ao longo dos anos: campanhas em diversas áreas e trabalhos de temas diferentes. Houve momentos em que deixei de exercer Medicina completamente, para trabalhar apenas em políticas de saúde.
Acho que é importante que as pessoas saibam que o desenvolvimento da carreira profissional não precisa de ser apenas numa área, pode-se fazer muitas coisas diferentes ao longo da vida profissional. Pode-se ir para sítios diferentes, mudar de caminho, dar uma passo atrás, seguir novas direções. Há dez anos, eu nunca me teria imaginado a fazer o que faço hoje, e, sinceramente, daqui a dez anos também não sei o que estarei a fazer.
Ao longo do seu percurso enquanto ativista e médica ganhou vários prémios, especialmente em 2019. Com destaque para os prémios de Marie Claire- “The Humanitarian Hero”, de “Asian Women of Achievment Award- Young Achiever” e “Stylist’s- Woman of the week”. Tem um papel muito presente na igualdade de género. Como foi receber estes prémios?
Não estava mesmo nada à espera. É de notar que muitas das coisas que fiz estão relacionadas com as mulheres, porque sou uma feminista, e completamente sem vergonha disso! Muito do trabalho que faço, incluindo muitas das campanhas que estou envolvida, estão relacionadas com isso mesmo, os direitos das mulheres. Cheguei mesmo a afastar-me da Medicina durante algum tempo para trabalhar na organização de defesa dos direitos das mulheres, para compreender melhor o que fazem.
Sempre fiz, simplesmente, aquilo que me preocupa. E é por isso que, às vezes, as pessoas me dizem: “Fazes imensa coisa!”. Mas não sinto que faço muita coisa, estou apenas a fazer aquilo que me importa. Quando fazemos aquilo pelo qual somos apaixonados e aquilo de que gostamos, não parece trabalho.
Ao longo da sua palestra, deu diversos exemplos de como se revoltou com diversas situações que foi vendo no seu local de trabalho, como o exemplo que teve nasua família. Sendo filha de imigrantes, sentiu-se mais atenta à vida das comunidades imigrantes e refugiados?
Tem muito a ver com aquilo que vi e com o trabalho que fiz. Podes escolher o que vês e o que não vês. Acho que também é sobre dedicar tempo a realmente compreender e observar as coisas, estando mais atenta e aberta às mesmas. Sendo filha de imigrantes, estive sempre muito atenta ao que se passava na zona onde morávamos.
Passei muito tempo a ir a eventos, a aprender sobre estes temas, porque não consegues compreender os problemas que as pessoas estão a enfrentar a menos que realmente percebas o que está a acontecer.
Enquanto médicos, somos muito privilegiados. Estamos no topo, não vemos o que está a acontecer em baixo e as pessoas também não nos vêem como iguais. É preciso ser humilde, aprender o que está a acontecer, reconhecer o nosso lugar na sociedade e ter humildade para olhar para o que acontece noutras partes da sociedade.
No entanto, isto exige uma mente aberta e curiosidade para aprender. Por isso, sim, acho que vem em parte do que vi e do trabalho que fiz, mas também sobre não olhar apenas para a superfície e olhar um pouco mais de perto para os problemas.
Nos últimos dias, circulou um vídeo nas redes sociais de uma criança que protestava contra os imigrantes, dizendo que estes deveriam voltar para o seu país. Isto é algo que não só está a acontecer em Portugal, mas um pouco por todo o mundo. Porque é que acha que se observa o crescimento desta onda de racismo e problematização dos imigrantes?
Lembro-me que quando era mais jovem, provavelmente um pouco mais velha que tu, aconteceu algo semelhante. O racismo vai sempre existir, assim como a xenofobia. Mas acho que isso deve-se principalmente a dois fatores, que estão a acontecer agora. Primeiro, vemos um aumento deste tipo de opiniões, não porque surgiram de repente, mas sim porque agora as pessoas sentem-se mais à vontade para as dizer em voz alta, e até com mais orgulho, de uma forma que nunca aconteceu antes. Segundo, há mais raiva, frustração e sensação que a vida está pior. As condições de vida pioraram nos últimos anos, e as pessoas procuram alguém para culpar. É por isso que o Brexit aconteceu. Muitas pessoas que votaram a favor do Brexit viviam em áreas sem imigrantes, mas eram regiões muito pobres, sem investimento e com serviços precários. Foi sobretudo um voto de raiva.
As condições de vida das pessoas estão piores e os políticos capitalizam esse sentimento de raiva, tentando culpar os imigrantes. Mas o que realmente precisa de ser compreendido é o papel que as redes sociais têm em tudo isto. As pessoas vivem em bolhas nas redes sociais. O meu Instagram e o teu podem ser muito diferentes do Instagram de outras pessoas. Se nessas bolhas estão constantemente a aparecer conteúdos negativos, anti-imigrantes ou racistas, isso afeta quem está a ser exposto. No Reino Unido, na Europa e nos EUA, as redes sociais proliferam essas opiniões e polarizam as pessoas. Temos pessoas de um extremo e pessoas do outro e elas não conversam entre si, estão em mundos de redes sociais completamente diferentes, não leem as mesmas notícias e acabam por se tornar extremistas.
Além disso, há o conforto de dizer o que se pensa e dizer coisas que não seriam ditas na vida real, e isso, torna-se realidade. No fundo, usam a sua liberdade para atacar a liberdade dos outros.
No dia 10 de outubro celebrou-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Sei que também tem um papel ativo neste tema. Acha que a saúde mental ainda é um estigma ou o conhecimento sobre a saúde mental está a ser tido mais em conta e tem melhorado ao longo dos anos?
Está muito melhor do que estava há dez ou até mesmo 20 anos atrás, mas acho que ainda não é suficiente, ainda existe estigma. Não sei como é em Portugal, mas no Reino Unido, a saúde mental não tem o mesmo financiamento que a saúde física. Por exemplo, uma criança que precisa ser vista por um especialista em saúde mental tem de esperar mais de dois anos. Por outro lado, uma criança com um problema de saúde física é atendida dentro de alguns meses. Por isso, a disparidade é bastante clara.
Como pessoa que usa a sua voz diariamente para lutar por causas justas, como é que ao nos manifestarmos como futuros médicos podemos tentar mudar certas situações ou tentar “tornar o mundo um lugar melhor”?
Acho que é importante perceber o quão poderosa é a voz de um médico. Primeiro, porque, o médico é uma pessoa respeitada e de confiança, provavelmente a profissão mais confiável do país. Segundo, fazem parte de uma classe onde são privilegiados, mas pessoas de uma classe social semelhante, por exemplo, os advogados, os políticos, os gestores não veem as mesmas coisas que um médico vê. Além disso, lidam com pessoas reais todos os dias.
Faz parte de ser médico: ter a responsabilidade de cuidar dos seus doentes, de ser o seu defensor e usar essa responsabilidade para se manifestar e fazer o que é certo pelos doentes.
Ser médico não é apenas um trabalho, é uma profissão, e por vezes as pessoas esquecem-se disso. Se eu digo algo na comunicação social, a razão pela qual sou convidado a falar não é para saberem a minha opinião pessoal, mas porque sou médica. Estou a usar o facto de ser médica para falar sobre questões importantes. Se não fosse médica, não teria essa plataforma. É importante usar os conhecimentos que se obtêm da vida das pessoas e das suas condições para nos manifestarmos enquanto médicos.
Por fim, que conselhos gostava de dar aos estudantes de medicina e futuros médicos?
Quando era estudante, o meu foco era passar nos exames e conseguir acabar a faculdade. No entanto, não posso deixar de realçar que à medida que se avança na carreira, tudo se torna mais fácil, porque ganha-se mais experiência e autonomia.
Gostava também de dizer que cada um pode escolher o tipo de médico que quer ser, temos poder de escolha sobre isso. Pode parecer que o sistema tenta colocar-nos num único caminho, mas, na realidade, pode-se escolher o percurso que queremos, só é preciso trabalhar até lá chegar.
Estudar Medicina é um percurso muito difícil, mas uma vez ultrapassada a faculdade, torna-se mais fácil. Este é o meu conselho!


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