Cobertura palestras “Oncology: More than cancer”

O primeiro dia da edição 17.0 do iMed, dia 11 de outubro de 2025, foi marcado por uma grande diversidade de palestras, entre as quais a de oncologia, intitulada “Oncology more than cancer”. Com foco nesta área, os oradores Dr. Márcio Debiase, Dr. Jan Theys, Dra. Trecy Gonçalves e Dr. Pedro Meireles, pretendem analisar novas técnicas terapêuticas, epidemiologia e novos estudos desta que é uma doença que afeta pessoas por todo o mundo, todos os dias.

   Numa introdução ao tema, o Dr. Márcio Debiase, especialista em oncologia médica e médico da Fundação Champalimaud, define o cancro como uma “doença que acontece no interior de nós”.  Apesar da agressividade do cancro, é possível ver que há uma grande evolução da terapêutica ao longo dos anos, desde o surgimento da imunoterapia, utilizada pela primeira vez pelo Dr. William Coley no século XIX, até ao recurso às vias de checkpoint imunológico (PD-L, PD-L2) numa terapia de imunologia mais evoluída. 

 Já o Dr. Jan Theys apresenta-nos uma nova forma de olhar para o tratamento do tumor necrotizante através da bactéria anaeróbica Clostridium. Dr. Jan Theys é médico, professor universitário da Universidade de Maastricht, na Holanda, e chefe da educação para as ciências médicas. A bactéria Clostridium germina nos esporos e cresce especificamente em regiões necróticas. O crescimento do tumor provoca libertação de muitas citocinas e o aparecimento de regiões de hipóxia, provocando necrose tumoral, que pode ser utilizado para tratar tumores. Com estes factos em mente, Dr. Jan Theys, juntamente com um grupo de investigadores, alterou geneticamente a bactéria de forma a que a Clostridium atuasse como um “cavalo de Tróia”. A bactéria é colocada de forma inativa,através de uma injeção intravenosa, e quando chega ao tumor torna-se ativa. A Clostridium coloniza a área com necrose do tumor e, desta forma, é utilizada para sinalizar o target. Normalmente, a bactéria seria morta pelas células imunes do hospedeiro, mas, nas células tumorais, isso não acontece, devido ao seu ambiente pouco vascularizado e imunossuprimido. A bactéria é, assim, muito utilizada como vetor para as PD-L1 e PD-L2, de forma a tornar o tumor mais visível ao sistema imune ou para libertar fármacos diretamente no tumor. Por fim, o Dr. Jan They reforça que enquanto estudantes e médicos devemos estar sempre curiosos e procurar ler artigos para ficarmos a par das novas descobertas.

   A cardiologista parisiense, Dra. Trecy Gonçalves, é especializada em cardio-oncologia e procurou sensibilizar para a importância desta nova sub-especialidade. As doenças cardiovasculares são a primeira causa de morte mundial, seguidas do cancro. Não é por acaso que isto acontece, visto que doentes com cancro têm maior risco de ter doença cardiovascular e doentes com insuficiência cardíaca têm maior risco de desenvolver cancro.  A cardio-oncologia é responsável pelo diagnóstico, tratamento e prevenção do cancro, bem como a monitorização da doença cardiovascular causada diretamente pelo cancro. Isto acontece porque alguns dos medicamentos utilizados para o tratamento do cancro provocam danos cardíacos. Por exemplo, descobriu-se que a antraciclina causa toxicidade cardíaca induzindo o aparecimento de arritmias e insuficiência cardíaca. No entanto, a sub-especialidade do cardio-oncologia ainda se encontra em desenvolvimento, sendo necessária, também, uma revisão das guidelines terapêuticas neste tipo de patologias.

 O último orador, Dr Pedro Nunes Meireles, e professor da Universidade de Lisboa, é especializado em cancro da mama, ginecológico e hereditário. Desta forma, reforçou a importância da prevenção destes cancros, nomeadamente através da vacinação. O HPV é a causa necessária para quase todos os cancros cervicais e a sua forma prevalente de rastreio e prevenção é o screening e a vacinação. O objetivo desta prevenção cursa com a vacinação de cerca de 90% da população-alvo. O screening tem principal foco nas mulheres de idades entre os 35 e os 45 anos.  Procura-se prevenir o cancro do endométrio através do equilíbrio hormonal e metabólico, controlo do peso, OCPs e tentar evitar a exposição ao estrogénio. Por outro lado, o cancro do ovário, é um cancro mais silencioso, tem menor incidência, mas é mais mortífero, e como tal, não tem um população screening aplicável. Para este cancro, o foco está , por enquanto, em perceber qual é a agressividade da patologia(BRCA/Lynch) e na utilização de biomarcadores e ferramentas digitais para auxiliar a terapêutica. Em jeito de conclusão, o Dr. Pedro reforça que os principais desafios futuros são: eliminar o cancro cervical até 2050, controlando o risco de infeção pelo HPV; classificar molecularmente o cancro do endométrio para facilitar a abordagem terapêutica com a imunoterapia; e detetar precocemente o cancro do ovário.

No final, foram feitas diversas perguntas aos oradores. Ao Dr. Jan Theys foi perguntado: ”Existe algum tipo de limitações para o tratamento do cancro através da necrose?” Ao que foi respondido que toda a aplicação desta estratégia depende do tipo de tumor. Um passo fundamental para esta aplicação é o estudo prévio do mesmo. Quanto à utilização em metástases, depende se estas tiverem necrose ou não. Talvez no futuro haja a possibilidade de utilizar esta técnica em targets não só de necrose, mas de hipóxia. Foi também perguntado aos quatro oradores: “Qual a melhor forma de alterar os fatores modificáveis no cancro?” Um fator transversal é melhorar o estilo de vida e a dieta. A melhor forma também de alterar o prognóstico é identificando os casos de cancro em pessoas jovens. Diferentes prevenções conseguem diminuir o risco de mortalidade, uma vez que, quanto mais cedo o diagnóstico, melhor.  Por fim, uma última pergunta foi feita à mesa redonda: “Como é que se lida emocionalmente com a doença oncológica?” A verdade é que a relação médico-paciente é muito diferente das outras especialidades, a disparidade desta relação entre oncologia e medicina interna é enorme. Forma-se uma relação diferente com o paciente quando comparado com outras especialidades, uma vez que o médico acompanha-o perante a gravidade e incerteza inerente à doença oncológica. A confiança entre o médico e o paciente é muito importante e, acima de tudo, devemos manter-nos humanos!


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