O ano está a acabar e por esta altura começam a sair as listas das publicações, que põem o ano em retrospetiva. Há tanta música a ser lançada todas as semanas que é impossível mantermo-nos a par de tudo o que vai sendo editado. Regra geral, os artistas dividem-se em três grupos: os rebentos recentes, os artistas já estabelecidos e os novos que não são assim tão novos. james K, a artista nova-iorquina que se apresentou na sala da ZDB no passado dia 27 de novembro, pertence a esta última categoria.
O seu álbum de estreia tem quase uma década, mas Friend, deste ano, foi o projeto que maior projeção lhe deu. Apesar de ter já outros dois longa-duração editados para além de Friend, james K fez parte da seleção de 40 melhores novos artistas de 2025 da revista Stereogum. Por sua vez, o projeto deste ano já consta de várias listas de final de ano e só agora é que estas começaram a sair. Não só o álbum como um todo tem sido aclamado, mas também a belíssima canção que é “Play”. Mas desta falaremos mais à frente.
Mantendo o excelente formato dos concertos da ZDB, o projeto português Villa, Redhead recebeu-nos na familiar sala do Bairro Alto. Apesar de ser descrito como “o projeto a solo do artista, produtor e numerólogo português João Maciel”, duas pessoas subiram a palco. Com apenas estas duas pessoas, o alinhamento passou por variadíssimas paisagens e curiosamente havia algo em Villa, Redhead que as unia e fazia com que tudo fizesse sentido.
A variedade das canções era deleitosa, fluindo do indie rock dos anos 90 para a música ambient, cruzando a eletrónica experimental e a pop indie na onda do feel-good. À semelhança do que acontece no hyperpop, há uma energia jovem notória que surge quando se conjugam vários géneros, usando o ecletismo com orgulho e uma grande despreocupação para com os puristas do género (que ironicamente tendem a pertencer a uma faixa etária mais distante).
A presença da linha vocal ausentava-se maioritariamente nos momentos de tendência ambient e eletrónica, estando mais presente quando Villa, Redhead invocava o rock do final do último milénio, num revivalismo moderno que chamava por comparações com Alex G. Mas será que a voz estava assim tão presente? Percebia-se que ela estava lá mas soava marcadamente reduzida em termos de volume. O resultado nada tinha a ver com outros artistas que diluem a linha vocal no meio dos instrumentos. Era como se tivessem pegado na faixa vocal e reduzido os decibéis uma dezena, ficando a mistura final desequilibrada. Fica a dúvida se era escolha artística ou apenas problemas de som.
O que Villa, Redhead equilibrava de forma exímia era o ruído e a beleza melódica. Havia muito granulado nas músicas de Villa, Redhead, mas, passo a passo com este bulício, serpenteavam linhas melódicas encantadoras e lustrosas. O resultado final era ambivalente. Conquistava porque repelia de forma aliciante e interpelava-nos constantemente. Era impossível desligar do que estava a acontecer em palco, porque os sons contraditórios que de lá saíam nos agarravam. Contraditórios, mas que Villa, Redhead conjugava de forma homogénea, embora nunca limando as arestas acidentadas, o que resultava numa interessante malha complexa.
Findado o primeiro concerto, sair para fumar um cigarro foi certamente uma péssima decisão, ainda por cima quando sabíamos que aquela data estava esgotada. Como era de prever, quando voltámos a entrar na sala, tivemos de ficar vários metros atrás da nossa posição inicial e com uma vista para o palco limitada. No entanto, como nem tudo é mau, conseguimos ter uma visão mais geral da sala por estarmos mais atrás.
Via-se uma sala a abarrotar. Mas isso não impediu que se dançasse. As pessoas moviam-se algo restringidas, mas (quase) nunca pararam. Os momentos de Friend que mais se destacam são aqueles com BPMs mais elevados. Ainda assim, também existem meditações serenas no disco, bem como no início do catálogo de james K, e estas também tiveram o seu lugar no alinhamento da atuação. Não foram os pontos mais fortes do espetáculo e o público não estava tão investido durante o terceiro quarto do alinhamento, que consistiu principalmente de baladas mais sossegadas.
Acreditamos que a música de james K funciona melhor quando os baixos e drum machines estão a trabalhar, pela mesma razão que a atuação de Villa, Redhead nos cativou. Há uma antítese. A artista cultiva nas suas faixas um ambiente hipnótico de fundo, que nos envolve e nos faz perder noção das referências espacio-temporais. Na mesma medida, temos o baixo e a percussão a marcar o tempo. É como se cada pulsação fosse um instante seco e exato, mas o espaço entre cada tempo do compasso contivesse multitudes e fosse tudo menos definido.
O clímax desta antonímia foi a já mencionada “Play”. A faixa é um dos pontos mais altos do álbum e certamente uma das melhores canções do ano. Quando começaram a soar os primeiros arpejos, a multidão levou o entusiasmo a níveis inéditos até então naquela noite. De repente, a antítese tornou-se física e carnal. O espaço era restrito, mas no pouco espaço compacto que as pessoas tinham, abanaram-se de um lado para o outro, para a frente e para trás, de forma fluída e livre, mas, acima de tudo, eufórica. Renderam-se à hipnose ritmada de james K.
“Play” fechou a atuação da melhor forma possível. Desde Villa, Redhead até ao último instante da performance de james K, foi uma noite marcada por várias oposições que nos mantiveram agarrados e investidos. Estávamos limitados nos nossos movimentos, mas a verdade é que não havia limitação nenhuma. A sala cheia deixou-se levar pelo feitiço de james K e libertou-se com a sua música.


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