Nasce, este ano, uma nova especialidade em Portugal. Uma nova escolha dada aos recém-médicos, ao espelho do que acontece já em muitos países pelo mundo. A Medicina de Urgência e Emergência pretende a melhoria da capacidade de resposta dos Serviços de Urgência, como refere a Ordem dos Médicos, que na sua maioria é preenchido por médicos especialistas sobrecarregados e cujos bancos estão sujeitos a elevados níveis de pressão. Esta nova especialidade veio dar resposta à complexidade típica de muitos dos doentes que dão entrada no Serviço de Urgência, entre eles, os sujeitos a episódios de Trauma.
Foi no 2º dia de lectures da iMed Conference 17.0 que foi introduzido este conceito para o plenário de discussão, tendo dado palco às palestras de Ashleigh Lowther, do Dr. Carlos Ferreira e do Prof. Robert Tidswell. O Prof. Nuno Gaibino, médico no serviço de helicópteros de Emergência Médica, adjunto da coordenação da VMER Santa Maria e coordenador nacional de transplantação, presidiu esta discussão multidisciplinar. O professor inicia-a discriminando os pilares que considera a “Holly Bible” do trauma, entre eles a necessidade de cuidados integrados desde a prevenção até a reabilitação, as capacidades técnicas e não técnicas de uma equipa de trauma e a harmonização mundial na prestação de cuidados a doentes traumatizados. Estes aspetos não poderiam ser discutidos numa melhor altura senão no ano em que a formação médica em Portugal abraça a especialidade que sobre estes doentes mais se debruça.
Estes conceitos foram generosamente aprofundados por Ashleigh Lowther, enfermeira e Avanced Clinical Practicioner (ACP) em cuidados de emergência, credenciada pela Royal College of Emergency Medicine, no Reino Unido. Na sua palestra, foi salientada a importância do cuidado precoce prestado aos doentes em episódios de trauma, preferencialmente nos primeiros 10 minutos de admissão. Com ela, a ATMIST handover, abordagem que nos permite recolher a informação do paciente em causa, colocou-se na primeira linha da passagem de cuidados ambulatórios para hospitalares: Age (idade, nome, data de nascimento), Time (início dos sintomas e time of injury), Mechanism of injury/ Medical Complaint (resumo dos sintomas e principal queixa), Injuries (achados observados e detetados em exames), Signs (sinais vitais e score da Escala de Glasgow), Treatment (tratamento e resposta ao mesmo). A utilização desta abordagem, em conjunto com uma escuta atenta, a preparação adiantada de uma checklist, a harmonização do processo e, ainda, a atitude de calma e confiança perante estas situações permitem a homogeneização e organização não só da equipa, mas também do ambiente e da prestação de cuidados que, de forma integradora, consente a manutenção sustentável dos Serviços de Urgência.
O Dr. Carlos Ferreira, cirurgião geral especialista em Trauma e, desde 2014, cirurgião de Trauma com o Comité Internacional da Cruz Vermelha, prosseguiu com o painel. A sua experiência de Medicina Intensiva e de Urgência estende-se desde o início da sua carreira, altura em que operou no INEM como membro integrante das unidades de resposta de emergência da VMER, CODU e SHEM, até ao seu trabalho cooperativo, desde 2018, com os Médicos Sem Fronteiras, tendo contribuído em missões no Iraque e República Democrática do Congo, e intervindo em conflitos armados no Sudão do Sul, Goma, Iémen, Ucrânia e Faixa de Gaza. Segundo o Dr. Carlos, os cidadãos são as maiores vítimas nestes contextos austeros, com grande foco nas crianças, para os quais a falta de recursos e a destruição dos meios de fornecimento de cuidados não contribuem. Aquando a sua intervenção em Gaza, o único hospital funcionante era europeu, tendo que ser evacuado 2 meses após a sua instituição, devido a questões de segurança, demonstrando a potencial fragilidade das intervenções efetuadas. Evidenciou, por fim, que, sendo necessários nestas missões, os cirurgiões de guerra devem ser munidos de técnicas cirúrgicas avançadas e flexíveis, no entanto, nunca deixando para trás a importância do cuidado humano-humano, carente da sua compaixão e dedicação.
Para finalizar, assistimos à apresentação do Dr. Robert Tidswell, especialista em Medicina Intensiva, atualmente consultor na University College London Hospital e galardoado com o Medical Research Council Research Training Fellowship pelo seu trabalho na descoberta da fisiopatologia da condição de sépsis. Robert salienta a desumanização e vulnerabilidade dos doentes traumatizados e com doença crítica: a imobilização prolongada, a falta de luz do sol, a comunicação cortada e deficiente com os pares e privação de sono são alguns dos fatores que tornam estas circunstâncias delicadas. Nisto, reforça-se que the injury is only the beginning. Exemplificando, consequências a longo prazo incluem miopatias com fraqueza associadas ao catabolismo e inflamação, doenças mentais severas, disfagia, afasia e lesões cognitivas, mesmo com lesão primária fora do SNC, sendo que apenas 50% dos doentes com Síndrome de Dificuldade Respiratória Aguda (ARDS) retornam às atividades profissionais em 12 meses. A natureza multidisciplinar destas condições sindrómicas acrescenta à sua complexidade e evidencia a ação da equipa montada de serviço no cuidado (não apenas técnico) destes doentes.


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